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Idosa de 76 anos costura 408 metros de tapetes para Corpus Christi

Publicado em: 15/06/2017 11:19

Maria Koerich Petry é uma mulher de fé. Devota da santa com quem divide o nome, a senhora de 76 anos, moradora de São Pedro de Alcântara, também recebeu um chamado de grande responsabilidade e, motivada por sua crença, aceitou a incumbência: a confecção de quase 500 metros de tapete para a celebração do Corpus Christi.

Nesta quinta-feira, católicos em todo o mundo saem em procissão para demonstrar a fé no "corpo e sangue de Cristo". Tradicionalmente, as ruas das cidades são cobertas com tapetes feitos de serragem colorida, borra de café, farinha, flores e outros acessórios. Não em São Pedro de Alcântara. Lá, a celebração será com tapetes feitos em patchwork, uma técnica de unir retalhos variados, compondo diversas misturas de colorações e formatos.

- Certo dia, no ano passado, o padre Jorge [Gelatti, pároco da cidade] perguntou o que eu achava de fazer os tapetes do Corpus Christi em tecido. Respondi que se a gente conseguisse ajuda da comunidade para comprar o material, me prontificava a fazer - conta Maria.

O lema da Campanha da Fraternidade 2017, "Biomas brasileiros e defesa da vida - cultivar e guardar a criação", deu ainda mais força à ideia do padre Jorge, que repensou o uso de materiais usados nos tapetes, como as tintas químicas que colorem a serragem e os dejetos deixados para trás após a procissão.

- Precisamos ter um olhar carinhoso para nosso berço de vida. Queremos preservar a natureza e ela, como boa costureira, dispôs-se a confeccionar os tapetes. Deixei a tarefa nas mãos dela e fiquei impressionado - comenta o pároco.

Inspirada no Papa Francisco, notório defensor da natureza, Maria procura fazer a sua parte para a preservação ambiental, sendo que uma das maneiras que encontrou foi ajudar a acabar com os dejetos da procissão de Corpus Christi. Para montar as dezenas de peças que compõem o tapete de quase 500 metros, esta senhora trabalhou durante um ano e três meses, quase todos os dias.

- A família me chamou de louca - conta, aos risos.

Inspiração

Na véspera do feriado de Corpus Christi, parte da família de Maria Petry foi visitá-la em casa, onde mora sozinha. Café quentinho na xícara e um dedo de prosa pela manhã para acertar os últimos detalhes da montagem da tapeçaria nesta quinta, algumas horas antes da missa, marcada para as 8h.

- A mãe sempre foi uma guerreira, então abraçou essa causa e foi em frente. Amanhecia o dia, ela tomava uma xícara de café e já ia para máquina, de onde só saía à noite - conta a filha Noêmia Petry, de 51 anos.

A neta Patrícia, de 34 anos, também foi visitar Maria nesta quarta-feira, junto com o filho Samuel, de 14 anos. Feliz com a conclusão da missão, Patrícia diz que o importante mesmo é que Deus deu saúde à sua avó.

- Ela sempre trabalhou com costura e há seis anos conheceu o patchwork. Só que essa responsabilidade, esse trabalho todo que ela fez, é muito grande. Tenho muito orgulho - afirma Patrícia.

O bisneto de Maria, que já foi coroinha na Igreja Matriz de São Pedro de Alcântara, onde acontecerá a festividade, também não esconde o orgulho.

- Toda pessoa tem que se ocupar com alguma coisa, e isso que ela faz é bem legal. Ela ajuda a paróquia com a arte dela, nunca tinha visto nada parecido. Só a bisa, mesmo - diz Samuel.

Independente

Maria Petry não é uma pessoa que se pode chamar de roqueira. Mas, ao ver esta senhora de fé inabalável dirigir seu quadriciclo motorizado na paisagem bucólica de São Pedro de Alcântara, é inevitável lembrar da música "Jesus numa moto", do grupo de rock rural Sá, Rodrix & Guarabyra.

A estrofe "Sob a luz da lua / Mesmo com sol claro / Não importa o preço que eu pague / O meu negócio é viver" resume o sentimento de independência que move Maria. Certo dia, ela conheceu um senhor que "ia para lá e para cá" de triciclo. Se tornaram amigos, e ele perguntou se Maria gostaria de ter um desses veículos.

- Ninguém sabia, ela comprou escondido de toda a família. O pessoal acha uma graça, os velhinhos se divertem - lembra a neta Patrícia.

Viúva duas vezes, Maria vive sozinha. Os filhos moram perto, mas ela não gosta de incomodá-los. Então, o jeito foi acelerar.

- Achei o quadriciclo mais seguro que o triciclo, então quis ele. Aquele senhor entrou na internet e fez a compra para mim. No dia que chegou, liguei pro pessoal e chamei para virem ver meu "carro importado". Acharam o máximo - conta a risonha e independente senhora.

Fonte: Diário Catarinense
Foto: Diorgenes Pandini / Diário Catarinense

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