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Bancos admitem que juro é alto e culpam medo de calote e custo trabalhista

Publicado em: 04/10/2017 06:42

Por que é tão caro pegar um empréstimo no Brasil? A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) encomendou um estudo para tentar responder a essa pergunta. A conclusão é que realmente o país é campeão em juros altos. Entre as razões para isso, citaram custos de operação de um banco, falta de informações sobre a possibilidade de calote de clientes e até encargos trabalhistas.

Além disso, a entidade elaborou uma proposta de reforma do sistema de crédito, com 14 sugestões para o governo mudar a legislação e, desta forma, ajudar a reduzir o chamado "spread", que é a diferença entre a taxa de juros que você paga no empréstimo e a taxa que o banco paga para levantar recursos para oferecer o crédito.

O "Estudo do Spread Bancário", desenvolvido pela consultoria Accenture a pedido da Febraban, comparou as taxas de crédito e outros indicadores financeiros praticados pelos cinco maiores bancos do Brasil (Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander) com os dados dos cinco maiores bancos em 12 países.

Na lista, estão países desenvolvidos, como Estados Unidos e Alemanha, e nações em desenvolvimento semelhantes ao Brasil, como Rússia, Turquia e Chile. A análise foi feita no período de cinco anos, entre 2012 e 2016. Veja algumas conclusões.

Brasil tem, de longe, o maior spread
O estudo confirmou o que todos já desconfiavam: a taxa média de spread no Brasil é, de longe, a maior entre os países pesquisados, Spread é a diferença entre os juros cobrados pelos cinco maiores bancos e a taxa básica de juros da economia.

Veja quais foram as principais taxas em 2016, pela ordem, do maior para o menor:

Brasil: 22%
México: 9,1%
Alemanha: 5,5%
Estados Unidos: 5,2%
Chile: 4,3%
Custos de bancos justificariam juros
O levantamento conclui que os custos para operar um banco no Brasil justificariam o spread tão alto aqui na comparação com outros países. "O custo da intermediação financeira representa 77% do spread bancário. A margem de lucro do banco representa a menor parte", diz Murilo Portugal, presidente da Febraban.

O estudo desmembrou os custos em quatro itens para analisar o impacto de cada um dentro da composição do spread: custos com inadimplência, custo financeiro, custo operacional e custo tributário.

Bancos não têm informações sobre possíveis caloteiros
Os bancos brasileiros adotam padrões de crédito bastante conservadores para lidar com a inadimplência, o que faz o volume de provisões (uma espécie de reserva de segurança no caso de calote) alcançar 4,5% do total da carteira de empréstimos dos bancos, enquanto a média global é de 1,1%.

Um argumento da Febraban para justificar o rigor das instituições na hora de oferecer empréstimos é o acesso limitado a informações sobre a situação de crédito da população. As centrais de informação de crédito, como Serasa e Boa Vista SCPC, cobrem apenas 78,9% da população adulta no Brasil, índice similar ao da Rússia (77,2%), mas abaixo de México, Estados Unidos e Reino Unido, onde 100% da população possui sua situação de crédito devidamente registrada nas centrais de informação.

Além disso, há muita imprecisão nas informações prestadas. Segundo Murilo Portugal. a implementação do Cadastro Positivo (lista que mostra quem é bom pagador) poderia melhorar isso. Mas, como hoje a população não é obrigada a registrar seus dados, o Cadastro Positivo tem uma cobertura muito limitada, de cerca de 6 milhões de pessoas.

Lei não garante tomada de bens dos devedores
Outra justificativa da Febraban para explicar o custo elevado da inadimplência é a falta de leis mais claras que garantam a retomada de bens de caloteiros, como carros e casas.

Segundo o estudo da Accenture, no Brasil o índice médio de recuperação desses bens é de 16%, contra 69% na média mundial. O prazo de recuperação por aqui também é mais lento, de 4 anos, contra média de 2 anos nos países analisados.

Depósitos compulsórios encarecem captação de recursos
O custo financeiro, ou seja, quanto o banco gasta para conseguir dinheiro para emprestar, é outro fator relevante dentro da composição do spread bancário. No Brasil, essa despesa representa 8,8% dos ativos (bens) dos bancos, contra 3,8% em países em desenvolvimento e apenas 1,1% em países desenvolvidos.

O principal culpado pelo alto custo financeiro no Brasil é o depósito compulsório, segundo a federação. Uma parcela dos valores que as pessoas depositam nos bancos fica retida no Banco Central, como forma de controlar a quantidade de dinheiro em circulação na economia.

Hoje, 45% de todos os depósitos à vista (feitos em conta corrente), 30% dos depósitos na Poupança e 36% dos depósitos a prazo (um investimento em CDB, por exemplo) são direcionados ao Banco Central. A média global é de 3% para depósitos à vista, 2% para depósitos a prazo e nenhum compulsório sobre a poupança.

"Na prática, isso quer dizer que os bancos brasileiros têm que captar três vezes mais recursos para emprestar o mesmo volume de dinheiro de bancos de outros países", afirma Murilo Portugal.

Custos trabalhistas e carga tributária também seriam culpados
A Febraban faz coro com outras entidades empresariais, que reclamam dos elevados custos trabalhistas. Eles representariam 4,5% dos recursos dos bancários, contra 2,7% na média mundial. Os bancos também reclamam dos impostos.

Murilo Portugal destacou que a carga de impostos sobre os bancos chega a 45% (25% de Imposto de Renda e 20% de Contribuição Social Sobre o Lucro líquido), acima da carga de outros setores da economia, que pagam em média 34%.

Febraban propõe reforma do sistema de crédito
A Febraban apresentou uma série de medidas para tentar solucionar o problema. Algumas delas dependem dos próprios bancos, como investimentos em tecnologia, busca de eficiência em processos internos, compartilhamento de caixas automáticos e a montagem de uma central de informações de crédito mais abrangente do que as existentes hoje.

Outras dependem do governo, como redução do custo da inadimplência, modernização de leis e redução de burocracia.

Algumas propostas:

Redução das alíquotas do depósito compulsório (depende só do Banco Central)

Ampliação do Cadastro Positivo (depende do Congresso)

Mudanças na lei de uso de bens como garantia de empréstimos (depende do Congresso).

Fonte: UOL
Foto: Arquivo/Agência Brasil

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