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'Não sofri maus-tratos', diz brasileiro após ser solto na Venezuela

Publicado em: 08/01/2018 06:31

Após quase dez dias de uma experiência traumatizante no cárcere venezuelano, o brasileiro Jonatan Moisés Diniz, de 31 anos, confirmou ao GLOBO que está bem e não sofreu maus-tratos físicos durante a detenção. Por um aplicativo de mensagens, ele não quis informar o destino para onde seguiu após a libertação da prisão e expulsão do país pelo governo do presidente Nicolás Maduro, alegando que precisa preservar a sua segurança.

O Itamaraty, no entanto, informou que o catarinense viajou diretamente para Miami, nos EUA, onde foi recebido por um agente consular.

Permanece o mistério sobre as condições em que ocorreu a sua prisão, sob acusação de promover atividades contra o regime através de falsos trabalhos filantrópicos, e a sua rotina na sede central do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), em Caracas. Ele nega que os seus trabalhos filantrópicos no país tivessem ambições políticas, embora tenha se indignado com a repressão das forças de segurança durante os vários meses de manifestações do ano passado.

Cansado depois de ficar acordado por 36 horas, em que enviou notícias a alguns amigos e familiares, Jonatan esclareceu que foi preso perto do aeroporto de Maiquetia, no estado de Vargas. Ele agradeceu ainda pela comoção que, desde a sua prisão, foi demonstrada pelos brasileiros. Nos últimos dias, houve diversos apelos pela sua soltura nas redes sociais e, segundo a prefeitura da Balneário Camboriú, muitos cidadãos da sua cidade-natal buscaram saber informações juntos às autoridades sobre o seu paradeiro.

- Estou bem e não sofri maus-tratos físicos - disse o jovem de 31 anos ao GLOBO. - Agradeço a todos de coração por todo o apoio. Meu muito obrigado a toda a imprensa que ajudou muito na minha soltura. Quando um povo se une de verdade não há governo que não se amedronte. Oro para que isso seja um exemplo para que o povo saiba a força que pode ter e, quem sabe, um dia façamos deste mundo um paraíso.

o Ministério da Relações Exteriores do Brasil informou que Jonatan recebeu apoio do governo brasileiro ao desembarcar nos Estados Unidos. Ao chegar em Miami, ele foi recebido por um agente consular. Além de informar que está em boas condições, o brasileiro também teria dito que não precisa de ajuda adicional das autoridades brasileiras.

DESABAFO: 'ODIEI MUITO MADURO'

Neste domingo,o ativista usou suas redes sociais para fazer um longo desabafo sobre toda a sua experiência na Venezuela. Segundo o relato, ele visitou a região pela primeira vez em 2016 como mochileiro e acabou se encantando pelo lugar. Apaixonou-se também por uma venezuelana e viveu no país por três meses, entre maio e agosto de 2017, desenvolvendo trabalho filantrópico voltado para a população empobrecida. A ideia do seu projeto era doar roupas, comida, brinquedos e "o que fosse necessário para quem estava precisando".

Ele contou ter presenciado a violenta onda de protestos contra o governo que, durante vários meses do ano passado, tomou conta do país. "Odiei muito Maduro por todas as bombas de gás lacrimogêneo que tive que respirar", escreveu. Apesar das críticas ao regime de Maduro, no entanto, Jonatan negou que seus esforços de caridade tivessem intenções políticas, como denunciara o número dois do chavismo, Diosdado Cabello, ao anunciar sua detenção no fim de 2017.

"Eu e ela namoramos por um ano e, por todo esse ano, me inteirei mais e mais sobre Venezuela e sua situação. E assim, dia após dia, fui pegando mais carinho por esse país e essas pessoas", relatou Jonatan, dizendo que presenciou a violenta onda protestos contra o governo que, durante vários meses do ano passado, tomou conta da Venezuela. "Odiei muito Maduro por todas as bombas lacrimogêneas que teve que respirar. Vi muita barbaridade tanto de um lado quanto do outro. Quando eu não chorava pela notícia de mais um jovem assassinado que batalhava por liberdade e por um país melhor, eu chorava por ver crianças de 5 ou 6 anos prepararem bombas molotov no meio da avenida para os confrontos."

'DO CORAÇÃO NÃO MORRO MAIS', DIZ A MÃE

Mais cedo, a sua mãe, Renata Diniz, relatara à reportagem ter recebido uma mensagem do filho, na qual Jonatan pedia que ela ficasse tranquila. Após dias de preocupação e apelos ao governo brasileiro para que agilizasse os esforços pela libertação do filho, ela finalmente havia sido informada de que Jonatan estava em boas condições.

- Logo depois da soltura dele lá, eles (do Itamaraty) nos comunicaram: 'Ele está bem, não sofreu nada fisicamente. Ele está muito bem e estamos embarcando ele' - contou Renata. - Do coração, eu não morro mais. Essa é a sensação. Meu Deus, foram dez dias em que a gente não dormiu. É uma coisa muito complicada, muito difícil. Poderia estar em qualquer outra situação, menos lá. É muito difícil tentar negociar alguma coisa pelo regime. Tínhamos total certeza de que ele não havia cometido nenhum crime: nem roubado, nem matado, nem traficado.

Cabello declarara publicamente que o brasileiro estava à frente de uma ONG chamada "Time to Change the Earth", que serviria de fachada para promover atividades contra o governo venezuelano na internet e nas ruas. O regime também o acusou informalmente de ser parte do grupo "Warriors of Angels" ("Guerreiros dos anjos", em português). Um dos seus supostos delitos teria sido publicar em redes sociais imagens de protestos contra o governo Maduro. Em nenhum momento, no entanto, foram divulgadas formalmente as acusações judiciais que pendiam contra o brasileiro. Jonatan diz que queria apenas levar "união para ajudar os mais necessitados" no meio de uma grave crise econômica - com a escassez de alimentos e remédios, além da inflação mais alta do mundo, que pode chegar a 6000% em 2018, segundo especialistas.

"O mais importante era tentar de alguma maneira mudar a mentalidade das pessoas, tentar encontrar uma maneira de em vez de guerrear, unir as partes para todos lutarem pelo mesmo objetivo. Eu não me envolvo em política, não me envolvo em nenhum desses teatros criados por pessoas ocultas para fazermos acreditar que existe democracia. Eu não sou lado A nem lado B... Eu só não quero ver crianças morrerem por nossa culpa, por o que nós adultos criamos na Terra", escreveu nas suas redes sociais.

O catarinense ficou detido num local conhecido como "A Tumba" por ex-presos. O governo brasileiro demorou mais de uma semana para descobrir que ele estava nessa espécie de prisão de segurança máxima. O regime venezuelano é frequentemente acusado de torturar presos políticos. Ainda não se sabem detalhes sobre a sua soltura, que só teria sido possível graças ao Itamaraty, relatou uma fonte ao GLOBO.

Fonte: O Globo
Foto: Reprodução

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