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Povoado indígena entre Pacaraima e Boa Vista vira abrigo de venezuelanos: 'Eles choram ao ver comida'

Publicado em: 02/03/2018 18:58

Foram três dias andando para percorrer os 100 quilômetros entre Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, e Amajari. No caminho, o casal venezuelano que enfrentava o trajeto na BR-174 sentiu sede, fome e não conseguiu carona. Mas, no meio do percurso, uma surpresa: "pedimos água e ganhamos comida".

Pais de dois filhos, o marido, de 33 anos, e a mulher, de 29, deixaram Anzoategui, região Oriental da Venezuela, em razão da crise no país natal. Foram parar na Vila Três Corações, em Amajari, na metade do caminho entre Paracaraima, cidade na fronteira, e Boa Vista, a capital.

Agora, fazem parte do crescente número de imigrantes morando na vila às margens da BR-174. O povoado tem 2 mil habitantes e mais de 70 moradores venezuelanos, a maioria recém-chegados.

Como está a 100 quilômetros da fronteira, o povoado está na linha de frente da "rota da fome" e, há pelo menos seis meses, recebe um crescente fluxo de gente faminta, cansada e doente.

Roraima recebe, desde o final de 2015, um número crescente de imigrantes venezuelanos. Em três anos foram quase 20 mil pedidos de refúgio e 3.350 de residência temporária só de imigrantes do país vizinho.

Muitos deles estão em Boa Vista onde já são 40 mil, segundo as contas da prefeitura. Na cidade, eles se dividem entre viver nas ruas, em abrigos lotados ou casas compartilhadas com dezenas de outros imigrantes.

A presença de venezuelanos sobrecarrega a Vila Três Corações. O único posto médico da vila vive cheio, e às vezes faltam medicamentos.

"Mudou muita coisa aqui, o consumo de energia, da água, dos remédios nos postos. Isso é preocupante para mim como tuxaua, como pai e morador ao mesmo tempo. [...]Todos os dias têm atendimentos para os venezuelanos. Eles tão vindo de lá com bastante malária, muitas doenças mesmo", explica Vando.

Na Vila Três Corações, a maioria dos imigrantes se abriga em casas de cedidas, ou em galpões que estejam vazios. A alimentação fica por conta dos moradores, graças à caridade de gente como Diogledson Alves, de 25 anos, que já abriu várias vezes as portas da casa onde mora para receber os imigrantes.

"Eu acho normal ajudar. A gente conversa, tem uma certa intimidade e confiança e libero a casa para eles", narra lembrando que, em muitos casos, o contato com os visitantes é marcado pelo choro.

É na casa dele que o casal de venezuelanos recém-chegados dorme na varanda há quase 15 dias.

"Foram muito hospitaleiros com a gente. [...] Nos brindaram com a confiança", contam. Eles, que não quiseram ter os nomes divulgados, dizem que agora querem trabalhar para conseguir dinheiro e chegar até Boa Vista ou Manaus.

A solidariedade não é só praticada pelos nativos. Há ainda os venezuelanos que ajudam os viajantes em fuga da fome. Esse é o caso de Gabriel Martinez, de 47 anos e da esposa, Gregória Martinez, 49. Na vila, moram em uma casa cedida pela empresa em ele trabalha como vigilante. A moradia é simples, mas virou ponto de apoio para quem precisa. "Ajudo dando comida, deixando ficar aqui".

O acolhimento, porém, não é aprovado por todos. O tuxaua diz que muita gente não gosta de ver imigrantes vivendo na vila, o que gera um mal estar entre nativos e visitantes.

"Muitos não acham bom, porque têm pessoas ruins e boas, mas assim a gente tenta resolver junto com eles, conversando, explicando a realidade da nossa comunidade. Peço para eles [imigrantes] não se envolverem nas coisas erradas. Problemas já temos demais na comunidade, e aqueles que me dão problema, eu sinto muito, mas eu tenho que mandâ-los caminhar para frente".

Na estrada também é comum ouvir histórias de imigrantes que não conseguem carona, comida ou água, e passam horas a fio esperando uma ajuda que não chega.

Esse foi o caso de Maria Alejandra Pacheco, de 29 anos. Ela chegou ao Brasil junto com a mãe Silmara Pacheco, 51, e as filhas de 6 e 7 anos, mas não tiveram sorte.

As quatro ficaram um dia inteiro esperando carona na beira da BR-174, ainda na sede de Pacaraima. Não conseguiram ajuda. "Venezuelanos que fazem o mal também vêm para cá, roubam, e por um pagam todos", diz Alejandra.

Sem dinheiro para passagens que custam entre R$ 30 e R$ 50, caminharam 12 quilômetros em uma noite até a comunidade Indígena Sorocaima I. Lá, ganharam comida, mas não a carona até a capital. Por causa das crianças, não poderiam fazer o resto do percurso a pé e decidiram esperar até quando aguentassem.

'Relação de amor e ódio'
Há, em curso, uma relação contraditória entre os imigrantes e a população local, afirma Franco Rocha, professor e pesquisador da Universidade Federal de Roraima (UFRR). Para ele, o convívio entre os recém-chegados e os moradores é marcado por dois sentimentos distintos: o amor e o ódio.

"Você vê uma mulher com criança, e você dá carona, dá de coração. Ao mesmo tempo, você acha que os venezuelanos vêm concorrer no mercado de trabalho, e aumentar o desemprego".

De um lado, gestos de solidariedade. Todos os dias, ONGs, integrantes de igreja ou grupos isolados levam comida, água, roupas e sapatos aos mais de 800 moradores da Praça Simón Bolívar em Boa Vista. O local é o principal ponto de aglomeração de que vêm a pé e de carona pela BR-174.

Do outro lado, relatos de xenofobia e ódio. No início do mês, o guianense Górdon Fowler, de 42 anos, foi preso suspeito de incendiar duas casas de venezuelanos. Cinco pessoas ficaram feridas, incluindo uma menina de três anos. Em depoimento, ele disse que os ataques foram movidos por uma aversão generalizada aos venezuelanos.

"Essa relação de afeto, solidariedade e ao mesmo tempo de rejeição está dentro das pessoas, não são separadas. É uma sensação contraditória, mas, na minha opinião, a solidariedade tem suplantado a rejeição".

Fonte: G1 RR
Foto: Inaê Brandão/G1 RR

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