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'Tenho direito de cidadã', diz eleitora que usará nome social no título; são mais de 300 pessoas no Paraná

Publicado em: 02/10/2018 08:11

"Nós não somos apenas uma minoria que deve viver escondida. Nós existimos, nós estamos aqui e temos o direito de ter nosso nome reconhecido". Essas são as palavras de Larissa Azevedo, de 30 anos, uma das 306 pessoas que vão ser identificadas no local de votação no Paraná, no próximo domingo (7), pelo nome social e identidade de gênero. A inclusão do nome social no título de eleitor foi permitida após uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Larissa nasceu em Maringá. Aos cinco de idade veio com a família para Curitiba. Ela conta que desde sempre se identificou como uma criança "diferente". Criada em família conservadora, na religião evangélica, cresceu frequentando a igreja. Aos 18 anos se assumiu como um homem gay, mas enfrentou a repressão familiar e como solução, aos 21 anos, casou-se com uma mulher. "Fiz isso para tentar mudar, eu acreditava em toda questão religiosa e tentei mudar quem eu era", disse.

O casamento durou quatro anos. Do relacionamento, Larissa teve um filho com a ex-esposa, que atualmente tem oito anos de idade. Sem conseguir mudar quem era, a gerente de restaurante se separou da parceira e passou a se aceitar como gay. "Dentro desses quatro anos tentaram a libertação religiosa dos pés a cabeça, de tudo quanto é forma que se possa imaginar. Não tive sucesso, então resolvi me aceitar. Vivi como homem gay por cinco ou seis anos", contou.

Mesmo se assumindo gay, Larissa ainda não se sentia à vontade com sua identidade. "Por mais que eu vivesse no mundo gay, eu não tinha conhecimento sobre o que era ser transexual", revelou.

Aos 27 anos, a jovem entendeu que era transexual e foi em busca de tratamento psicológico e físico. "Completado três anos eu me considero mulher transexual e aí entra a questão de todo o trabalho da mudança do nome e aceitação da sociedade", ressaltou.

Aos poucos, foram surgindo os desafios em relação ao uso do nome social. "Enfrentei diversos processos judiciais por meio do Ministério Público, mas a minha dificuldade era a questão do meu filho, por ele ser menor de idade e ter que mudar os documentos dele também, o juiz sempre negava o pedido. Mesmo com todos os laudos psicológicos e médicos, judicialmente eu era barrada", disse.

Com a permissão do nome social no título de eleitor, Larissa comemora a possibilidade de exercer a cidadania por meio do voto sendo quem ela é. "Isso é prova que a gente está dando um grande passo. Porque eu fui atrás do título de eleitor? Porque é um documento que me representa, representa quem eu sou, representa o meu nome. Por meio do título de eleitor eu vou conseguir mudar todos os outros, então é uma pequena porta que vai ser uma grande janela para gente conseguir os nossos direitos", destacou.

Larissa acredita que o uso do nome social na eleição vai evitar situações constrangedoras, que muitas vezes colocam em xeque a existência da pessoa transexual. "Ninguém vai ficar medindo as pessoas se é transexual ou não. Você chega lá uma mulher e aí apresenta o documento com nome masculino, o mesário acha estranho. Já aconteceu várias vezes comigo, de chegar em banco e a pessoa do atendimento falar que eu estava com documento errado e não iria liberar o dinheiro. É triste você ter que provar e entrar em toda explicação sobre transexualidade", lembrou. "Então quando você apresenta seu documento: é Larissa? É Larissa e pronto acabou. Não terá motivo para chacota. Tenho direito de mulher, de cidadã", contou.

NOME SOCIAL

Nome social é aquele que designa o nome pelo qual o transexual ou travesti é socialmente reconhecido. Já a identidade de gênero estabelece com que gênero - masculino ou feminino - a pessoa se identifica.

USO DO NOME SOCIAL NA ELEIÇÃO

Em março, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) respondeu uma consulta formulada pela senadora Fátima Bezerra (PT-RN) e aprovou o uso do nome social nas eleições.

Na época, o ministro Tarcisio Vieira, relator do caso destacou que "um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil consiste em promover o bem de todos sem preconceito de origem, raça, sexo, cor idade ou quaisquer outras formas de descriminação", conforme o artigo 3º, inciso IV, da Constituição Federal.

Na mesma data, o Supremo Tribunal Federal (STF) votou favorável a alteração do nome e gênero nos documentos de pessoas trans sem a necessidade de cirurgia ou terapia.

COMO SOLICITAR

Os eleitores tiveram o prazo de 3 de abril a 9 de maio para solicitar a inclusão de seu nome social no título de eleitor e no caderno de votação das Eleições 2018.

Não foi necessário apresentar nenhum laudo ou documento que comprove o nome social.

Fonte: Francielly Azevedo - Paraná Portal
Foto: Reprodução Facebook

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